Por vezes as pessoas -- entre as quais me incluo -- esquecem-se que a política é a arte do possível. Leio nos blogues que o Presidente da República, não podendo dissolver o Parlamento, pelo menos deveria demitir o Governo.
Deixemos de lado a situação política que se vive como se ela não existisse -- a Orçamento do Estado ainda por aprovar, a expectativa à volta do veredicto das agências de rating que se aguarda -- e concentremos a nossa atenção puramente na decisão. Cavaco Silva demitia o Governo. E depois? O que aconteceria se o PS fizesse finca pé? Como reagiriam BE e PCP? O próprio PSD cuja vida interna permanece por resolver?
São incógnitas a mais, não acham? Iniciar uma crise sem ter uma solução previamente alinhada? Estão a brincar?
Cavaco Silva tem um sentido prático que o não levará seguramente para esses caminhos. Há muitas incertezas e demasiadas variáveis que não controla, já para não falar do resto.
Para o Presidente da República intervir terá de existir um outro posicionamento das peças de xadrez no tabuleiro. O grau de incerteza e de risco terá de ser muito menor. Em suma, a dissolução do Governo deverá conter em si mesma as sementes de uma solução, o que não seria manifestamente o caso neste momento.