sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Os moderados

Como já acontecia quando era ministro, Luís Amado é uma voz de bom senso no PS. Incómoda para alguns, por certo, mas muito útil para ajudar a consolidar uma visão mais moderada no seio do PS.

A terrível maçonaria

Há temas que regressam ciclicamente às páginas dos jornais. A maçonaria é um deles. Um clássico. Como é hábito, sempre que surge um artigo sobre a maçonaria é certo e sabido que também não faltarão as mais ridículas teorias da conspiração. O tema zombie regressou esta semana. Desta vez o alvo foi o GOL, uma vez que a identidade dos seus membros foi parcialmente tornada pública. Confesso que pouco me interessa quem faz parte do GOL, mas compreendo, como é óbvio, a curiosidade da opinião pública.
A natureza discreta/confidencial da maçonaria sempre teve a minha discordância. Mas essa é a regra e, evidentemente, quem adere tem que a aceitar. No entanto nada impede um membro da maçonaria de revelar a sua participação. Pessoalmente nunca o escondi, muito pelo contrário. Isto dito, a determinado momento decidi afastar-me, por razões sem grande relevância e que pouco interessam. Por um daqueles acasos do destino, sensivelmente um ano depois de ter saído -- se a memória não me falha -- foi noticiado que fazia parte da 'famosa' Loja Mozart (que, já agora, ainda existe, apesar das insistentes notícias que estaria para fechar). Na altura não me pareceu relevante, antes pelo contrário, clarificar que a minha ligação com a Mozart era um assunto do passado. Seria, aliás, uma atitude feia da minha parte.
Regressando ao início, o único aspecto positivo que poderia resultar do que está a suceder ao GOL seria a decisão de tornar pública, por decisão própria, a identidade dos seus membros. Se a GLLP/GLRP assumisse a mesma linha seria ouro sobre azul. Acabava-se, de uma vez por todas, o 'problema' -- em parte um falso problema, refira-se -- da confidencialidade. Haveria, seguramente, um tema a menos para as teorias da conspiração.
Quanto à minha relação com a maçonaria, não excluo a possibilidade de regressar à Loja Mozart, ou eventualmente de participar noutra qualquer. Se isso acontecer, tal como no passado, não será seguramente segredo.

Novidades

Ian McEwan, Sweet Tooth (Jonathan Cape, 2012).

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Uma palavra

Manuel Alegre -- não se tinham esquecido da sua existência, pois não? -- resolveu fazer prova de vida e apelou ao veto do Presidente da República Aníbal Cavaco Silva se for escolhido o modelo de concessão para a RTP revelado por António Borges.
Em suma, um enorme bocejo.
Que tal antes um poema?

Os Guerreiros
Subitamente saíram da sombra.
Vinham de cara ao sol
com as suas armas cintilantes
soltando grandes gritos de combate
para morrer diante da cidade
que ninguém sabe ao certo onde ficava
e talvez fosse apenas
uma palavra.
Manuel Alegre, Nada Está Escrito (Publicações Dom Quixote, 2012: 47).

O momento certo

Na política, como no desporto e noutras actividades, de pouco vale estar certo no momento errado. O tempo político não é tudo, mas pode ter muita relevância.

O melhor amigo de Passos Coelho

Ainda bem que Pedro Silva Pereira aparece regularmente na comunicação social. A sua simples presença mediática -- nem necessita de dizer ou escrever uma palavra -- tem a enorme vantagem de nos lembrar o desastre que foi o passado recente com José Sócrates. Aqui e ali vejo decisões deste Governo que, por uma razão ou por outra, me desagradam. Mas subitamente eis que surge Silva Pereira numa rádio, numa televisão, ou num jornal. Como que por magia, de imediato tudo volta à sua devida proporção. A sua simples presença leva a que a minha insatisfação com esta ou aquela medida do Governo seja ultrapassada de imediato. A árvore que subitamente assumia proporções disformes, e que escondia a floresta, com a presença de Silva Pereira volta de imediato à sua escala natural. Esse é o seu grande atributo. Ele é o homem que com a sua simples presença nos reconcilia com o actual Governo. Isto, sim, é serviço público.

Salvar a Europa

Carlo Bastasin, Saving Europe: How National Politics Nearly Destroyed the Euro (Brookings Institution Press, 2012 [ToC & Prologue]).

Indignações selectivas

Olhando para os dados da execução orçamental, o PS entende que o Governo deve dar "a cara e expli[car] aos portugueses o que correu mal".
Como se o Governo alguma vez tenha deixado de dar a cara. Adiante. Vamos lá ver se percebi bem: o PS, que apresentou entre Março de 2010 e Março de 2011 quatro PECs -- repito, quatro PECs num ano apenas (um deles, felizmente, nunca chegou a ver a luz do dia, como sabemos) -- exige agora que o actual Governo 'explique' o que correu mal.
António José Seguro, João Assunção Ribeiro, Carlos Zorrinho, entre outros, alguma vez exigiram a José Sócrates que explicasse pelo menos num dos PECs o que correu mal? Na altura não tinham curiosidade? Sabiam a resposta, mas não queriam incomodar o Primeiro-Ministro?
E o que correu bem, também querem que Pedro Passos Coelho 'explique' aos portugueses? Essa parte não lhes interessa?

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Activistas disfarçados de jornalistas [2]

Custa-me muito ver na edição de papel do Público o nome de Luciano Alvarez associado a esta pseudo-notícia numa versão mais alargada. Essencialmente por duas razões. Em primeiro lugar porque acompanho o seu trabalho há cerca de duas décadas e habituei-me a associar o seu nome a trabalho jornalístico com qualidade. E em segundo lugar porque a sua própria experiência pessoal num passado não muito distante lhe deveria ter dado uma perspectiva e sensibilidade diferentes -- não me ocorrem outras palavras -- de modo a não fazer a terceiros aquilo que gostaria que não lhe tivessem feito a si.
Originalmente, o tema da licenciatura de Miguel Relvas era notícia?
Claro. Isso nem se discute. Tal como nem se discute que Miguel Relvas sucumbiu às facilidades que aparentemente lhe foram oferecidas pela Universidade Lusófona. Repito, isto é um ponto consensual que não merece grande discussão. Está noticiado, e bem. Ponto final.
Mas um cartaz na volta a França ou em Timor-Leste a mandar bocas deve ser notícia? E até quando serão notícia cartazes a mandar bocas sobre Miguel Relvas, alguém me sabe dizer?
Evidentemente que nada disso constitui matéria noticiosa, pelo menos para um jornal como o Público, a não ser que exista uma agenda justiceira, política, ou outra que de momento não identifico.
O Público deve estar activa e empenhadamente envolvido em exercícios opacos que apenas visam achincalhar uma pessoa? Isto aprende-se em que curso de jornalismo?

Na mouche [10]

Faço minhas as palavras de José Paulo Fafe.

Progresso fiscal

"Although the grinding austerity has kept the economy mired in a painful recession, Portugal’s troika of lenders (...) have praised the country’s progress on fiscal retrenchment. "We don’t believe the government can do more", Peter Weiss, a European Commission economist, said after the third assessment in April this year. Markets also indicate some tentative improvement. Lisbon’s two-year bond yields have dipped below 5 per cent, the lowest level in more than a year, and the benchmark 10-year bond yield briefly fell below 9 per cent earlier this month, and is one of the best performers in Europe this year. (...) "A certain level of confidence has returned in Portugal, where the government continues to enjoy enough support to push forward with a very tough adjustment programme", Gilles Moec, European economist at Deutsche Bank, said in the note. Nonetheless, investors and economists warn that Portugal still faces daunting challenges. (...) The IMF has already made clear that Portugal’s deficit targets are not "cast in stone" and could be adjusted to allow for economic developments. By allowing Spain to increase its 2012 budget deficit target twice, the EU has also shown it is prepared to be flexible. Indeed, many investors and economists expect Portugal’s adherence to the bailout programme’s conditions will win it more time from the troika, and possibly more aid until it can fund itself from private sector lenders. "Lisbon is doing more than enough to justify continued support from the EU", Mr Moec argued in his note."
Robin Wigglesworth and Peter Wise, "Portugal makes fiscal progress in the shadows" (FT, 28.8.2012).

Janela Lusófona [12]

1. Angola: Eleições sem história?
Ninguém tem dúvidas que José Eduardo dos Santos e o MPLA serão os vencedores das eleições gerais. Falta apenas saber qual a dimensão da sua vitória, se a UNITA de Isaías Samakuva tem uma vez mais um péssimo resultado, e como se comportará eleitoralmente a CASA-CE de Abel Chivukuvuku.
Quer isto dizer que estamos perante um acto eleitoral sem história?
Muito pelo contrário. Estas eleições constituem mais um passo importante na tripla transição em curso desde 1992: da guerra para a paz, do autoritarismo para a democracia liberal, e de uma economia planificada para uma economia de mercado.
Acresce que, estas eleições marcam o fim de um longo ciclo. Como salientava recentemente José Eduardo Agualusa, estas serão muito provavelmente as últimas eleições angolanas em que o vencedor é conhecido à partida. Ou seja, o simples facto de se realizarem estas eleições, independentemente das suas insuficiências, é importante. Acresce que, como observou Staffan I. Lindberg no livro Democracy and Elections in Africa, no continente africano os regimes democráticos tendem a ganhar raízes na sequência de três ciclos eleitorais, e a passagem de um regime ditatorial para um regime eleitoral competitivo tende a reforçar a tendência para a democratização e, eventualmente, para a democracia.
Se assim será, ou não, é algo que está apenas nas mãos dos angolanos.
(DE, 29.8.2012: 19.)

Activistas disfarçados de jornalistas [1]

Isto é tão ridículo. Custa-me ver o Público revelar uma notória falta de distanciamento e, sobretudo, envolver-se em nome de terceiros no combate político. Sim, é de combate político que estamos a falar. O Público não fez nenhuma declaração de interesses, mas é evidente que escolheu o seu lado da barricada.

terça-feira, 28 de agosto de 2012

A lama como argumento político

O ataque ad hominem perpetrado por José Junqueiro em relação a João Moreira Rato é absolutamente inqualificável e indigno do PS. O presidente do IGCP não 'serve' porque esteve no Lehman Brothers e passou pela Goldman Sachs? Isto é um argumento político sério? O PS agora também recorre aos truques baixos do BE?

Houston, we have a problem? [4]

Não, segundo Luís Naves.

Atributos da Justiça

Além de cega, pelos vistos, também deve ser estúpida. E histórias como esta vão-se repetindo. Santa paciência.

De excepção em excepção até à derrota final?

Manda o bom senso político que, a ser verdade, situações como esta não deveriam acontecer. Inevitavelmente, por mais legítimas que sejam, as excepções criam sempre um sentimento difuso de injustiça e minam não só a relação de confiança como também a própria credibilidade do Governo. Nas actuais circunstâncias, ainda pior. Julgo que isto não é muito difícil de entender, pois não?

[Adenda]
Como se sabe, com José Sócrates nunca houve regimes de excepção. Se José Junqueiro estivesse calado não se perdia nada.

Houston, we have a problem? [3]

"No que se refere às metas globais, o programa [acordado com a troika] não está a ser cumprido. A [meta] do défice em 2011, só diremos que foi cumprida se nos quisermos enganar. A de 2012, começa-se a acreditar que será muito difícil, para não dizer impossível de cumprir. Só que não estamos a passar de 5,9% para 4,5%, isso seria se tivéssemos cumprido o défice de 2011. Estamos a passar de 7% para 4,5%", Daniel Bessa (DN, 26.8.2012: 6).

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Houston, we have a problem? [2]

Jorge Moreira da Silva ensaia aqui, julgo eu, precisamente uma primeira tentativa de adaptação da narrativa oficial.

Houston, we have a problem? [1]

"Restam assim duas possibilidades: ou a adopção de medidas adicionais para atingir um défice de 4,5% do PIB, ou rever a meta para o défice de forma a incorporar o desvio, sendo que esta segunda possibilidade requer a anuência da troika" (Lusa via Público, 27.8.2012).
As duas possibilidades colocam problemas à narrativa oficial. Perante estes cenários, como é que, afinal, 2013 "será o ano da inversão da actividade económica"?
Devo dizer que na altura não vislumbrei qualquer problema no discurso do Pontal e na tentativa de transmitir alguma esperança. Hoje, porém, conhecidos na semana passada os números da execução orçamental, confesso que já não tenho tanta certeza.
Talvez seja ignorância minha, que não sou economista, mas adoptando medidas adicionais ou revendo a meta do défice, de uma forma ou de outra tal não significa que 2013 poderá vir a ser, muito mais do que inicialmente previsto, um ano de acrescidos sacrifícios?
A não ser, claro, que Pedro Passos Coelho deite a toalha ao chão e solicite mais tempo à troika, hipótese que, por diversas razões, foi sempre publicamente rejeitada.
Estou a ver bem o filme, ou estou a meter os pés pelas mãos?