José Ortega y Gasset: "Yo soy yo y mi circunstancia". Liberdade e destino. A vida é isto, o que não é pouco.
sábado, 27 de outubro de 2012
Guiné-Bissau: Notícia sempre por maus motivos [7]
Pansau Intchama terá sido capturado. Com um pouco de sorte, talvez se consiga saber com maior rigor o que aconteceu no dia 21 de Outubro, i.e. [1] se Intchama agiu por conta própria ou por conta de outrém, e [2] se foi um contragolpe de Estado como defende o Governo de transição, ou se tudo não passou de uma inventona, como alega Carlos Gomes Júnior. Esperemos, portanto, que a integridade física de Intchama não esteja em causa e que não haja confissões arrancadas sob tortura física.
Contagem decrescente
"Faltam 20 meses para acabar o programa de ajustamento", disse Miguel Relvas.
Aqui está um bom exemplo como a forma por vezes pode ser tão importante como a substância. A capacidade de comunicação, de facto, é fundamental. Evidentemente, tal não substitui a substância, mas faz uma enorme diferença. Ao colocar a questão desta maneira, Relvas salienta a meta e uma impõe uma contagem decrescente. Vítor Gaspar, por exemplo, salientava hoje que Portugal está "a dois terços da maratona" em vez de destacar que falta apenas um terço da maratona.
É claro que o caminho a percorrer nesses 20 meses continua a ser um problema, mas essa é outra questão.
Aqui está um bom exemplo como a forma por vezes pode ser tão importante como a substância. A capacidade de comunicação, de facto, é fundamental. Evidentemente, tal não substitui a substância, mas faz uma enorme diferença. Ao colocar a questão desta maneira, Relvas salienta a meta e uma impõe uma contagem decrescente. Vítor Gaspar, por exemplo, salientava hoje que Portugal está "a dois terços da maratona" em vez de destacar que falta apenas um terço da maratona.
É claro que o caminho a percorrer nesses 20 meses continua a ser um problema, mas essa é outra questão.
A maratona
Prosseguindo com a imagem e a comparação entre a maratona e o ajustamento, faltou a Vítor Gaspar acrescentar que no final só haverá um vencedor e pelo caminho ficarão diversos desistentes. É certo que muitos chegarão ao final da prova, mas alguns terminarão completamente exaustos, porventura a necessitar de assistência médica. Isto dito, apenas um atleta tirará enormes dividendos da prova (prémio financeiro, sponsors, reconhecimento público, etc.). Se tudo correr bem na implementação do programa de ajustamento -- esperemos que sim, mas temo que não -- Vítor Gaspar será o grande vencedor da maratona. Quais serão os seus dividendos?
sexta-feira, 26 de outubro de 2012
Politicamente incorrecto
Nunca me revi na sua agenda político-ideológica, no seu estilo de intervenção, ou na sua linguagem. Não alinho, por isso, com a tese politicamente correcta de que o Parlamento ficou mais pobre sem Francisco Louçã.
Uma UE a três níveis
"The euro crisis is changing the shape of the EU. As the countries in the eurozone seek to strengthen it by centralising economic policy making, three tiers are emerging within the union. The countries committed to further integration may set up new institutions. (...) At the core of the new structure, the 17 eurozone countries will submit national budgets and some economic policies to the control of EU institutions. This first tier will probably – as France and Germany are proposing – have its own budget, separate from the EU budget, to help countries that suffer economic shocks or are introducing painful structural reforms. The eurozone will be steered by regular meetings of its finance ministers and heads of government. A new body of members of the European parliament from eurozone countries and national parliamentarians from those states is likely to hold leaders to account.
A second tier, consisting of countries that aspire to join the euro, is already known as "eurozone plus". This group, which includes Poland, will accept much of the same supervision of budgetary and economic policy as the first tier. It will also join eurozone members in the banking union, which will start with centralised supervision and later extend to deposit insurance and resolution regimes.
The third tier will consist of the UK and a few others that do not wish to give up any more economic sovereignty."
Charles Grant, "A three-tier EU puts single market at risk" (Financial Times, 26.10.2012).
A second tier, consisting of countries that aspire to join the euro, is already known as "eurozone plus". This group, which includes Poland, will accept much of the same supervision of budgetary and economic policy as the first tier. It will also join eurozone members in the banking union, which will start with centralised supervision and later extend to deposit insurance and resolution regimes.
The third tier will consist of the UK and a few others that do not wish to give up any more economic sovereignty."
Charles Grant, "A three-tier EU puts single market at risk" (Financial Times, 26.10.2012).
Guiné-Bissau: Notícia sempre por maus motivos [6]
O porta-voz do Governo de transição da Guiné-Bissau, Fernando Vaz, considerou hoje "vergonhosas" as declarações do Primeiro-Ministro e do Presidente de Cabo Verde. E acrescenta: "Perguntamos se a independência de Cabo Verde é verdade e de que país é que veio. Terá vindo de Portugal?"
O desespero de Fernando Vaz é evidente na forma insultuosa como se dirige ao PM e PR de Cabo Verde. O clima de final de festa é indisfarçável. Boas notícias, portanto.
P.S. -- Entretanto, pelos vistos, a Amnistia Internacional também estará sob controlo de Portugal. Mais. Um destes dias até a CEDEAO/ECOWAS estará ao serviço de Portugal. Fernando Vaz é um incompreendido.
O desespero de Fernando Vaz é evidente na forma insultuosa como se dirige ao PM e PR de Cabo Verde. O clima de final de festa é indisfarçável. Boas notícias, portanto.
P.S. -- Entretanto, pelos vistos, a Amnistia Internacional também estará sob controlo de Portugal. Mais. Um destes dias até a CEDEAO/ECOWAS estará ao serviço de Portugal. Fernando Vaz é um incompreendido.
Em guerra
Mário Soares está em missão oficial. O ex-Presidente tudo fará para atacar o Governo, sobretudo na comunicação social. Soares que andou com Sócrates ao colo, e que até já elogiou Passos Coelho, agora não desperdiça uma oportunidade para dar uma ferroada no Governo. O mesmo Soares voltará a elogiar Passos Coelho se a direcção do vento mudar. É a vida.
Sempre a despropósito
As críticas de José Junqueiro às decisões do Governo são sempre infelizes na forma e no conteúdo. Cada tiro, cada melro. Desta vez o deputado histórico do PS, afirmou que "não se entende" uma remodelação governamental "em plena discussão do orçamento", considerou que a mesma reforça a "imagem de instabilidade" do Governo, e aproveitou ainda para destacar que o Executivo "aumentou".
Confesso que não sei o que é mais ridículo, se o acentuar de que o Governo aumentou, muito simplesmente porque há mais um secretário de Estado, se o frisar que a remodelação veio reforçar a imagem de instabilidade do Governo. Tudo isto é muito pobre, tudo muito pequenino. Não é por aqui, seguramente, que passa a afirmação do PS enquanto alternativa.
Confesso que não sei o que é mais ridículo, se o acentuar de que o Governo aumentou, muito simplesmente porque há mais um secretário de Estado, se o frisar que a remodelação veio reforçar a imagem de instabilidade do Governo. Tudo isto é muito pobre, tudo muito pequenino. Não é por aqui, seguramente, que passa a afirmação do PS enquanto alternativa.
quinta-feira, 25 de outubro de 2012
Apesar dos sinais de fadiga...
...mantém-se o rumo (#43, p. 26). Eis Darwin e a teoria da selecção natural aplicada ao programa de ajustamento...
Grandes problemas
"O orçamento vai ter grandes problemas de execução e um grande efeito recessivo", presidente do Santander Totta, António Vieira Monteiro.
Nem uma escolha cuidadosa das palavras esconde o facto de que Vieira Monteiro não acredita na possibilidade de o Orçamento do Estado para 2013 poder vir a ser cumprido com êxito. Ninguém, absolutamente ninguém, acredita nisso. Tudo se resume a ganhar tempo. No fundo, estamos perante uma estratégia que assenta no desespero e na impotência.
Nem uma escolha cuidadosa das palavras esconde o facto de que Vieira Monteiro não acredita na possibilidade de o Orçamento do Estado para 2013 poder vir a ser cumprido com êxito. Ninguém, absolutamente ninguém, acredita nisso. Tudo se resume a ganhar tempo. No fundo, estamos perante uma estratégia que assenta no desespero e na impotência.
quarta-feira, 24 de outubro de 2012
A capacidade de aceitar
"Os caminhos começam a ser menos evidentes para as pessoas -- antes, os desafios eram tão graves que era mais fácil entender e aceitar o que era necessário fazer. Tendo passado mais tempo, as pessoas estão a sofrer mais e a capacidade de aceitar sacrifícios é menor. É mais difícil manter a coesão social. A identificação das soluções entendíveis e aceitáveis é mais difícil", disse Fernando Ulrich.
Não concordo, no essencial, com a explicação de Ulrich. Não é o desgaste que justifica a erosão da capacidade de aceitar. O que se perdeu, a partir de Setembro, foi a relação de confiança e é isso que está a ser mortal.
Não concordo, no essencial, com a explicação de Ulrich. Não é o desgaste que justifica a erosão da capacidade de aceitar. O que se perdeu, a partir de Setembro, foi a relação de confiança e é isso que está a ser mortal.
Guiné-Bissau: Notícia sempre por maus motivos [5]
Ainda bem que a CEDEAO/ECOWAS tem uma força militar -- a ECOMIB -- na Guiné-Bissau. Sem ela porventura por esta altura já teriam ocorrido tentativas de golpe de Estado, espancamentos e, quem sabe, invasões de sedes partidárias por militares. Felizmente, com a ECOMIB no terreno, nada disso tem acontecido na Guiné-Bissau. A transição política tem corrido às mil maravilhas.
Um timing certeiro
"É enganador tentar dizer aos portugueses que existe uma margem de manobra negocial que não existe", disse Vítor Gaspar na Comissão de Orçamento e Finanças. Azar dos azares, o ministro faz estas afirmações no dia em que se fica a saber que o Governo grego chegou a acordo com a missão da troika para estender o seu prazo de cumprimento do programa de ajustamento económico e financeiro.
Dito de outra maneira, Gaspar vem alertar -- sempre a estratégia do medo -- que Portugal ficou no "limite de tolerância" da troika, no dia em que o limite de tolerância da troika em relação à Grécia foi, uma vez mais, revisto.
Dito de outra maneira, Gaspar vem alertar -- sempre a estratégia do medo -- que Portugal ficou no "limite de tolerância" da troika, no dia em que o limite de tolerância da troika em relação à Grécia foi, uma vez mais, revisto.
Quando será o regresso aos mercados?
Klaus Regling, que preside ao fundo europeu de resgate, acredita que os países sob assistência poderão financiar-se integralmente por si próprios a partir de finais de 2014.
Em suma, a tese de que regressaremos aos mercados em Setembro de 2013, que Vítor Gaspar repete de forma exaustiva, deve ser consumida com moderação.
Em suma, a tese de que regressaremos aos mercados em Setembro de 2013, que Vítor Gaspar repete de forma exaustiva, deve ser consumida com moderação.
Guiné-Bissau: Notícia sempre por maus motivos [4]
Iancuba Indjai e Silvestre Alves foram detidos e espancados por militares das Forças Armadas da Guiné-Bissau. Há inúmeras testemunhas que confirmam a sua detenção e, se houvesse vontade política (e militar), de certeza absoluta que não seria difícil identificar (e prender) os agressores. Porém, o ministro da Defesa nem se pronuncia sobre o assunto e o Governo limita-se a condenar o seu espancamento, exortando -- em abstracto e como Pilatos -- os órgãos competentes a prosseguirem com a investigação.
O respeitinho é muito bonito, naturalmente. Se a Guiné-Bissau fosse um Estado de direito nesse mesmo dia haveria dirigentes militares exonerados. O CEMGFA, António Indjai, por exemplo. O próprio ministro da Defesa seria chamado a retirar consequências políticas dos acontecimentos.
Infelizmente, a Guiné-Bissau não é um Estado de direito e o Governo de transição sabe isso melhor do que ninguém.
[Adenda]
Algumas palavras sobre a actual situação na Guiné-Bissau (West Africa Democracy Radio, 23.10.2012).
O respeitinho é muito bonito, naturalmente. Se a Guiné-Bissau fosse um Estado de direito nesse mesmo dia haveria dirigentes militares exonerados. O CEMGFA, António Indjai, por exemplo. O próprio ministro da Defesa seria chamado a retirar consequências políticas dos acontecimentos.
Infelizmente, a Guiné-Bissau não é um Estado de direito e o Governo de transição sabe isso melhor do que ninguém.
[Adenda]
Algumas palavras sobre a actual situação na Guiné-Bissau (West Africa Democracy Radio, 23.10.2012).
terça-feira, 23 de outubro de 2012
Tiro no próprio pé
Ironia das ironias, Pedro Santos Guerreiro (PSG) começa por reclamar para si -- de forma hábil -- um estatuto de isenção. Assumamos o pior sobre si, arrumemos de imediato essa questão -- diz ao leitor de modo inteligente e desarmante -- e passemos à substância. Não resiste, porém, de certa forma fugindo à substância, em salientar que João Duque "não percebe o conflito de interesses em que se vê envolvido, por receber remuneração do candidato [Impresa] que favorece no concurso".
Bom, mas não é essa também a sua situação? Receber remuneração da parte que defende? Não percebe também ele o conflito entre o seu estatuto de director de um jornal da Cofina, precisamente uma das partes que perde com os termos do concurso proposto por João Duque, e o editorial que escreve?
Perceber, percebe, mas Pedro Santos Guerreiro espera que a sua credibilidade -- repetidamente demonstrada ao longo dos anos -- o coloque à margem de qualquer suspeição relativamente a um eventual conflito de interesses. Porém, ainda que assim seja, o conflito de interesses está presente também no seu caso. É um facto.
Não lhe fica bem, por isso, falar no conflito de interesses de João Duque quando ele próprio tem, na matéria em que escreve, um óbvio conflito de interesses. Tal como não vejo nenhuma razão para assumir o pior em relação a PSG, de igual modo não vislumbro também nenhum motivo para ter como ponto de partida qualquer suspeição em relação a João Duque -- ainda que, note-se, se possa criticar a sua decisão.
Se é para assumir que à mulher de César não basta ser séria, é igualmente necessário parecer, nesse caso ou comem todos pelo mesmo prato, ou então mais vale estar quieto. A natureza humana é igual para todos.
P.S. -- Em bom rigor, o artigo de PSG teria passado muito bem sem a referência despropositada, no contexto, ao suposto conflito de interesses de João Duque. O que está em causa, a tal substância que PSG queria discutir (embora depois se tenha perdido pelo caminho com as suspeições sobre conflitos de interesses), é a forma como João Duque contorna os obstáculos que lhe são impostos pela lei. Mesmo que não houvesse conflito de interesses, o 'problema' criado pela lei e pela decisão de João Duque continuaria a existir.
Bom, mas não é essa também a sua situação? Receber remuneração da parte que defende? Não percebe também ele o conflito entre o seu estatuto de director de um jornal da Cofina, precisamente uma das partes que perde com os termos do concurso proposto por João Duque, e o editorial que escreve?
Perceber, percebe, mas Pedro Santos Guerreiro espera que a sua credibilidade -- repetidamente demonstrada ao longo dos anos -- o coloque à margem de qualquer suspeição relativamente a um eventual conflito de interesses. Porém, ainda que assim seja, o conflito de interesses está presente também no seu caso. É um facto.
Não lhe fica bem, por isso, falar no conflito de interesses de João Duque quando ele próprio tem, na matéria em que escreve, um óbvio conflito de interesses. Tal como não vejo nenhuma razão para assumir o pior em relação a PSG, de igual modo não vislumbro também nenhum motivo para ter como ponto de partida qualquer suspeição em relação a João Duque -- ainda que, note-se, se possa criticar a sua decisão.
Se é para assumir que à mulher de César não basta ser séria, é igualmente necessário parecer, nesse caso ou comem todos pelo mesmo prato, ou então mais vale estar quieto. A natureza humana é igual para todos.
P.S. -- Em bom rigor, o artigo de PSG teria passado muito bem sem a referência despropositada, no contexto, ao suposto conflito de interesses de João Duque. O que está em causa, a tal substância que PSG queria discutir (embora depois se tenha perdido pelo caminho com as suspeições sobre conflitos de interesses), é a forma como João Duque contorna os obstáculos que lhe são impostos pela lei. Mesmo que não houvesse conflito de interesses, o 'problema' criado pela lei e pela decisão de João Duque continuaria a existir.
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