Na passada Primavera a atmosfera que se respirava era francamente optimista. O regresso aos mercados era uma hipótese que se discutia abertamente e a próxima frente de batalha passava por conseguir que o rating de Portugal fosse revisto em alta. Repito o que já escrevi anteriormente. Confesso que pensei que tinha sido demasiado pessimista, que me tinha enganado, ainda que para mim fosse cristalino que haveria crise política da grossa algures em 2013.
Tudo isto são agora memórias, uma nota de rodapé na história futura destes dias. Hoje o regresso aos mercados é uma hipótese remota no curto e médio prazo, e o rating não só não melhorará tão depressa como ainda por cima poderá piorar.
O Governo é a entidade que mais informação possui para decidir qual o melhor caminho a trilhar. Visto de fora, a mim parece-me que ontem, com a decisão da S&P, a tentativa de rever em alta as metas do défice para o próximo ano sofreu um duro e pesado revés. No mínimo talvez fosse melhor ter alguma contenção nas declarações públicas.
Lamento, lamento mesmo muito, que tenhamos uma memória curta e que o tempo dilua a memória dos dias que temos vindo a viver desde que fomos obrigados a pedir auxílio externo. Os portugueses -- por portugueses leia-se opinião pública em geral, mas também políticos, empresários, reguladores, banqueiros -- que tanto gostam de tatuar o corpo deveriam ter obrigatoriamente um tattoo na testa, para que fossem permanentemente confrontados com isso e em momento algum o esquecessem, a dizer que um Estado endividado até ao tutano é um Estado miseravelmente frágil. Um Estado que gasta o que não tem mais tarde ou mais cedo está metido num grande sarilho.
P.S. -- Entretanto, o sujeito que nos enfiou neste buraco sem fim parece que vai lançar um livro. É assim a política. O responsável pelo atoleiro em que nos encontramos faz a sua vidinha na boa como se nada fosse com ele. Isto diz mais sobre nós do que sobre ele.
[Adenda]
Sobre a contenção verbal, eis o pedido de silêncio. Isto dito, não deveria ter sido o líder do PSD e primeiro-ministro a fazer essa intervenção?
José Ortega y Gasset: "Yo soy yo y mi circunstancia". Liberdade e destino. A vida é isto, o que não é pouco.
quinta-feira, 19 de setembro de 2013
quarta-feira, 18 de setembro de 2013
O défice de 2014
Na semana passada ficou claro, assumindo que o não era, a guerra que vai ser para conseguir convencer a troika no sentido de autorizar, em vez da meta actual de 4%, um défice de 4.5% em 2014. Com o realismo que o caracteriza, António José Seguro propõe pelo menos 5%. Se conseguir 4.5% já é difícil imagine-se 5% ou mais...
Ainda que não seja essa a sua intenção, o líder do PS acaba de prestar um grande favor ao Governo. Perante tal proposta, abstenho-me de a caracterizar como politicamente absurda, daquele que é potencialmente o partido político que dirigirá um executivo futuro, a posição do actual Governo até passa a parecer mais razoável e mais moderada.
Se a isto juntarmos as divergências no interior da troika, com o FMI claramente a correr numa pista diferente da do BCE e da Comissão, então diria que a revisão da meta do défice para 2014 não é inalcançável. Não vai ser fácil, mas não é impossível. Uma coisa é certa: sem tentar não se consegue de certeza absoluta.
Ainda que não seja essa a sua intenção, o líder do PS acaba de prestar um grande favor ao Governo. Perante tal proposta, abstenho-me de a caracterizar como politicamente absurda, daquele que é potencialmente o partido político que dirigirá um executivo futuro, a posição do actual Governo até passa a parecer mais razoável e mais moderada.
Se a isto juntarmos as divergências no interior da troika, com o FMI claramente a correr numa pista diferente da do BCE e da Comissão, então diria que a revisão da meta do défice para 2014 não é inalcançável. Não vai ser fácil, mas não é impossível. Uma coisa é certa: sem tentar não se consegue de certeza absoluta.
O regresso aos mercados [4]
Juros da dívida persistem acima de 7% e ameaçam programa cautelar. Este era o título ontem de uma notícia no Público. Não foi há muito tempo que Vítor Gaspar dizia, em mais um dos seus muitos erros de previsão, que Portugal regressaria agora aos mercados. Em Janeiro, Marcelo Rebelo de Sousa chegou a vaticinar que até poderia ser antes de Setembro.
Em Dezembro de 2012, escrevi o seguinte (p. 42): "It is therefore not surprising that rumors over the possibility of a second bailout or an additional extension of the deadline of the first have circulated. In any case, although it is not impossible, it will be difficult for Portugal to regain market access anytime soon, let alone in 2013, as the troika program and government predicted."
Devo dizer que no primeiro semestre deste ano cheguei a pensar que me tinha enganado e que teria sido demasiado pessimista. Porém, pelos vistos, a realidade é outra: enganei-me ao pensar que me tinha enganado.
O que explica o (novo) erro de previsão?
Alguns analistas apontam o dedo à demissão de Vítor Gaspar, à crise política posterior com a demissão irrevogável de Paulo Portas, bem como às decisões do Tribunal Constitucional (TC). Será seguramente parte de explicação. Mas será toda a explicação, ou mesmo a sua parte essencial?
Dito de outra maneira, vamos partir do pressuposto que não teria existido a crise política, ou até que o TC teria decidido de outra forma. Os juros da dívida seriam muito diferentes do que são hoje?
Provavelmente não, o que significa que, muito possivelmente, a explicação é outra.
Regresso ao que escrevi em Dezembro de 2012: "Although Portugal is implementing the measures agreed with international lenders, there is a growing sense that a stable economic outlook is not entirely in Portuguese hands, but rather depends on developments at the European level."
Na minha opinião, a chave para perceber a actual subida nos juros da dívida não se encontra nos acontecimentos do Verão passado, ou nas decisões do TC. Encontra-se, isso sim, no tabuleiro europeu. Os juros estão a subir em resposta aos comentários de Jeroen Dijsselbloem e à indefinição instalada até Novembro. O Governo tem responsabilidade na matéria apenas na medida em que assumiu publicamente a divergência com o Eurogrupo.
Não haja ilusões. Com ou sem crise política, com ou sem chumbos do TC, muito provavelmente a realidade actual seria muito semelhante. Na verdade, o regresso aos mercados em Setembro de 2013 foi sempre uma previsão arriscada. Importa, porventura, lembrar que o BCE ainda não considerou que Portugal poderia beneficiar das famosas OMT. Com ou sem crise política é provável que de qualquer modo não o tivesse feito. Note-se que a Irlanda não teve crise política e o BCE ainda não disse que preenchia os requisitos para beneficiar do programa.
Não sei como irão evoluir os juros da dívida nas próximas semanas, mas algo me diz que a existir alguma variação relevante será para pior. Antes de Novembro -- e do fecho das oitava e nona rondas de avaliação da troika -- a situação dificilmente melhorará. O regresso aos mercados, na melhor das hipóteses só acontecerá em 2014 e sob a guarida de um programa cautelar. É a vida.
Em Dezembro de 2012, escrevi o seguinte (p. 42): "It is therefore not surprising that rumors over the possibility of a second bailout or an additional extension of the deadline of the first have circulated. In any case, although it is not impossible, it will be difficult for Portugal to regain market access anytime soon, let alone in 2013, as the troika program and government predicted."
Devo dizer que no primeiro semestre deste ano cheguei a pensar que me tinha enganado e que teria sido demasiado pessimista. Porém, pelos vistos, a realidade é outra: enganei-me ao pensar que me tinha enganado.
O que explica o (novo) erro de previsão?
Alguns analistas apontam o dedo à demissão de Vítor Gaspar, à crise política posterior com a demissão irrevogável de Paulo Portas, bem como às decisões do Tribunal Constitucional (TC). Será seguramente parte de explicação. Mas será toda a explicação, ou mesmo a sua parte essencial?
Dito de outra maneira, vamos partir do pressuposto que não teria existido a crise política, ou até que o TC teria decidido de outra forma. Os juros da dívida seriam muito diferentes do que são hoje?
Provavelmente não, o que significa que, muito possivelmente, a explicação é outra.
Regresso ao que escrevi em Dezembro de 2012: "Although Portugal is implementing the measures agreed with international lenders, there is a growing sense that a stable economic outlook is not entirely in Portuguese hands, but rather depends on developments at the European level."
Na minha opinião, a chave para perceber a actual subida nos juros da dívida não se encontra nos acontecimentos do Verão passado, ou nas decisões do TC. Encontra-se, isso sim, no tabuleiro europeu. Os juros estão a subir em resposta aos comentários de Jeroen Dijsselbloem e à indefinição instalada até Novembro. O Governo tem responsabilidade na matéria apenas na medida em que assumiu publicamente a divergência com o Eurogrupo.
Não haja ilusões. Com ou sem crise política, com ou sem chumbos do TC, muito provavelmente a realidade actual seria muito semelhante. Na verdade, o regresso aos mercados em Setembro de 2013 foi sempre uma previsão arriscada. Importa, porventura, lembrar que o BCE ainda não considerou que Portugal poderia beneficiar das famosas OMT. Com ou sem crise política é provável que de qualquer modo não o tivesse feito. Note-se que a Irlanda não teve crise política e o BCE ainda não disse que preenchia os requisitos para beneficiar do programa.
Não sei como irão evoluir os juros da dívida nas próximas semanas, mas algo me diz que a existir alguma variação relevante será para pior. Antes de Novembro -- e do fecho das oitava e nona rondas de avaliação da troika -- a situação dificilmente melhorará. O regresso aos mercados, na melhor das hipóteses só acontecerá em 2014 e sob a guarida de um programa cautelar. É a vida.
Em destaque [28]
Um blogue: o Fragmentário, editado por Luís Naves e João Villalobos. É uma das minhas leituras assíduas. Sendo um leitor regular de jornais, constato com curiosidade que o grosso dos textos de comentário que leio são publicados em blogues. Nos jornais, todos somados, julgo que não leio nem 10% da opinião publicada.
terça-feira, 17 de setembro de 2013
Em destaque [27]
Sim, caro leitor, confesso que gosto de filminhos da treta. No seu segmento, este nem é mau. Mas espere só até ver o outro que ainda vou ver esta semana...
Programa cautelar ou segundo resgate?
Subitamente desatou toda agente a discutir se vamos ter um programa cautelar ou um segundo resgate. Na verdade ninguém sabe. Isto dito, uma coisa é a designação e outra a substância. Vai na volta teremos um programa cautelar em larga medida semelhante a um segundo resgate. No prato não falta quem confunda gato com lebre.
Doutrina presidencial dos impedimentos selectivos
O Público noticia que o nosso aposentado de Belém se recusou a fazer comentários sobre os cortes de 10% nas pensões da Caixa Geral de Aposentações anunciados pelo Governo, argumentando que o diploma ainda nem sequer entrou na Assembleia da República. "Nós não conhecemos neste momento a versão final" da proposta, defendeu Aníbal Cavaco Silva, lembrando que só depois de aprovado o diploma é que será submetido ao Presidente, e só nessa altura o deverá comentar.
Até aqui tudo bem. O nosso aposentado de Belém, numa abordagem razoável, afirma algo óbvio, i.e. que não pode comentar o que não conhece. Mas subitamente tudo se complica. Não podendo comentar, tal não quer dizer que não possa rotular o que desconhece. E sem mais demoras, o nosso aposentado de Belém classifica como "um novo imposto extraordinário" o tal diploma que ainda não chegou ao Parlamento. Confuso, caro leitor?
Passo a explicar a doutrina presidencial dos impedimentos selectivos: não se pode comentar o que não se conhece, mas isso não impede que se possa colocar desde já um rótulo valorativo nesse mesmo desconhecido.
Às duas por três, no meio desta intricada teia de impedimentos não-lineares, fiquei sem perceber se o nosso aposentado de Belém defende a primazia da prudência imprudente, ou da imprudência prudente. Uma coisa é certa: a vidinha custa a todos e Cavaco Silva, como se sabe, há meses em que tem dificuldade em esticar o dinheiro para fazer face às despesas. Ora, com um novo imposto, o Presidente correria o risco de poder passar fome.
Até aqui tudo bem. O nosso aposentado de Belém, numa abordagem razoável, afirma algo óbvio, i.e. que não pode comentar o que não conhece. Mas subitamente tudo se complica. Não podendo comentar, tal não quer dizer que não possa rotular o que desconhece. E sem mais demoras, o nosso aposentado de Belém classifica como "um novo imposto extraordinário" o tal diploma que ainda não chegou ao Parlamento. Confuso, caro leitor?
Passo a explicar a doutrina presidencial dos impedimentos selectivos: não se pode comentar o que não se conhece, mas isso não impede que se possa colocar desde já um rótulo valorativo nesse mesmo desconhecido.
Às duas por três, no meio desta intricada teia de impedimentos não-lineares, fiquei sem perceber se o nosso aposentado de Belém defende a primazia da prudência imprudente, ou da imprudência prudente. Uma coisa é certa: a vidinha custa a todos e Cavaco Silva, como se sabe, há meses em que tem dificuldade em esticar o dinheiro para fazer face às despesas. Ora, com um novo imposto, o Presidente correria o risco de poder passar fome.
segunda-feira, 16 de setembro de 2013
Prova de vida
Jorge Moreira da Silva -- já nem me lembrava que agora fazia parte do Governo -- decidiu fazer prova de vida. Como?
Fazendo um exercício público de autoridade utilizando para o efeito a China Three Gorges (CTG). Evidentemente, o ministro sabe muito bem que a CTG está a cumprir aquilo que foi acordado quando se tornou a maior accionista EDP. Mas isso pouco interessa. Moreira da Silva queria apenas um palco. Terminada a cena, tudo continuará tal como estava. Com uma única excepção. O ministro mostrou que existia.
Fazendo um exercício público de autoridade utilizando para o efeito a China Three Gorges (CTG). Evidentemente, o ministro sabe muito bem que a CTG está a cumprir aquilo que foi acordado quando se tornou a maior accionista EDP. Mas isso pouco interessa. Moreira da Silva queria apenas um palco. Terminada a cena, tudo continuará tal como estava. Com uma única excepção. O ministro mostrou que existia.
domingo, 15 de setembro de 2013
Allez, allez, Sporting allez [4]
Mais um jogo, mais uma vitória. Este talvez tenha sido no campeonato o jogo do Sporting menos interessante, ou menos conseguido, até ao momento. A equipa, porém, teve a sorte do jogo do seu lado. E marcados que estavam os dois golos na segunda parte da partida, o Sporting retirou o pé do acelerador, gerindo a partir dessa altura o resultado à medida que o tempo passava. No final, mais três pontos. Allez, allez, Sporting allez...
Foto: Francisco Leong (AFP via Público).
sábado, 14 de setembro de 2013
Uma recaída isolacionista
Tal como Vasco Pulido Valente, José Manuel Fernandes (JMF) também detectou uma "uma nova recaída isolacionista", ou muito simplesmente "uma recaída isolacionista" (Público de ontem). Os EUA, escreve JMF, parecem "querer regressar aos limites da sua concha". JMF termina o seu artigo com uma citação de Timothy Garton Ash sobre o decrescente intervencionismo militar de Washington.
Vamos por partes, tendo como ponto de partida o que já referi em relação ao artigo de Vasco Pulido Valente. Primeiro ponto: JMF compara o que não é comparável, i.e. os EUA de Obama com os EUA de Woodrow Wilson. Dito de outra maneira, JMF compara e tira ilacções de situações cujas variáveis não são constantes. A diferença mais óbvia é que os EUA de Wilson não eram a potência hegemónica no sistema internacional, ao contrário do que acontece hoje em dia.
Segundo ponto: eu gostava que JMF sustentasse com factos a sua afirmação de que os EUA -- quais EUA? Obama? Congressistas? Opinião pública? -- querem regressar aos "limites da sua concha". Mais. Que limites são esses? Qual é a concha? Como é que isso se conjuga com os documentos oficiais que são conhecidos -- tanto do State Department como do DoD -- que apontam precisamente para a manutenção da hegemonia político-diplomática, militar e económica dos EUA? (E a discussão do alegado isolacionismo poderia ser feita em maior detalhe em cada uma destas três vertentes.)
Terceiro ponto: de certo modo, JMF usa, ou refere, isolacionismo e intervencionismo quase como se fossem sinónimos. A recaída isolacionista de Washington, no fundo, corresponde a uma suposta diminuição na vontade de intervir militarmente onde e quando tal seja necessário. Enfim, seria interessante, uma vez mais, discutir se tal é verdade. (Ainda recentemente um artigo de opinião no Público referia diversas das inúmeras intervenções militares dos EUA no pós-Guerra Fria.) Mais importante, importa frisar que uma eventual redução nas intervenções militares e no intervencionismo não significa, como é óbvio, que se está a seguir uma orientação isolacionista.
Mas regressemos ao princípio. A realidade é que uma intervenção militar contra a Síria -- e esta em particular que parece ter sido desenhada com os pés --, ainda que limitada na sua escala, não assentaria em pressupostos estratégicos claros. Mais. Tal corresponderia a uma desfocagem em relação ao que é essencial para os EUA, i.e. China e Rússia num quadro macro e Irão no tabuleiro regional. Na verdade, por muito que isso custe a aceitar (e muito francamente não sei porque custa a aceitar), a guerra civil na Síria tem relevância periférica no grande quadro dos interesses geoestratégicos dos EUA. E assim sendo, é óbvio que uma intervenção militar na Síria não poderia deixar de ter opositores, tanto entre os norte-americanos como junto dos seus aliados.
Vamos por partes, tendo como ponto de partida o que já referi em relação ao artigo de Vasco Pulido Valente. Primeiro ponto: JMF compara o que não é comparável, i.e. os EUA de Obama com os EUA de Woodrow Wilson. Dito de outra maneira, JMF compara e tira ilacções de situações cujas variáveis não são constantes. A diferença mais óbvia é que os EUA de Wilson não eram a potência hegemónica no sistema internacional, ao contrário do que acontece hoje em dia.
Segundo ponto: eu gostava que JMF sustentasse com factos a sua afirmação de que os EUA -- quais EUA? Obama? Congressistas? Opinião pública? -- querem regressar aos "limites da sua concha". Mais. Que limites são esses? Qual é a concha? Como é que isso se conjuga com os documentos oficiais que são conhecidos -- tanto do State Department como do DoD -- que apontam precisamente para a manutenção da hegemonia político-diplomática, militar e económica dos EUA? (E a discussão do alegado isolacionismo poderia ser feita em maior detalhe em cada uma destas três vertentes.)
Terceiro ponto: de certo modo, JMF usa, ou refere, isolacionismo e intervencionismo quase como se fossem sinónimos. A recaída isolacionista de Washington, no fundo, corresponde a uma suposta diminuição na vontade de intervir militarmente onde e quando tal seja necessário. Enfim, seria interessante, uma vez mais, discutir se tal é verdade. (Ainda recentemente um artigo de opinião no Público referia diversas das inúmeras intervenções militares dos EUA no pós-Guerra Fria.) Mais importante, importa frisar que uma eventual redução nas intervenções militares e no intervencionismo não significa, como é óbvio, que se está a seguir uma orientação isolacionista.
Mas regressemos ao princípio. A realidade é que uma intervenção militar contra a Síria -- e esta em particular que parece ter sido desenhada com os pés --, ainda que limitada na sua escala, não assentaria em pressupostos estratégicos claros. Mais. Tal corresponderia a uma desfocagem em relação ao que é essencial para os EUA, i.e. China e Rússia num quadro macro e Irão no tabuleiro regional. Na verdade, por muito que isso custe a aceitar (e muito francamente não sei porque custa a aceitar), a guerra civil na Síria tem relevância periférica no grande quadro dos interesses geoestratégicos dos EUA. E assim sendo, é óbvio que uma intervenção militar na Síria não poderia deixar de ter opositores, tanto entre os norte-americanos como junto dos seus aliados.
É impressão minha...
...ou a liderança do PS está mais que arrependida de ter pedido uma leitura nacional dos resultados das eleições autárquicas? Em contrapartida, os críticos de António José Seguro nunca desejaram tanto como agora essa leitura nacional?
As voltas que a vida (política) dá...
As voltas que a vida (política) dá...
Decidam-se, se faz favor
Por um lado, a opinião pública -- ou talvez mais a publicada -- queixa-se que o Governo não faz o suficiente nas negociações com a troika para conseguir metas menos exigentes. Porém, quando o Governo adopta uma estratégia nesse sentido, a dita opinião treme com as reacções de Jeroen Dijsselbloem ou de Olli Rehn. Decidam-se, pá. Se querem metas menos exigentes há que lutar por elas, eventualmente ouvir o que não se queria. Achavam que era só dizer o que se queria e que nos era servido numa bandeja de prata?
Obviamente que não. É claro que a primeira reacção será sempre negativa. Mas este é um jogo que exige paciência, muita paciência, muito jogo de cintura e muito trabalho de bastidores. Não é nos primeiros 500 metros que se define o resultado de uma maratona. Não se assustem com as palavras de Dijsselbloem e de Rehn, até porque não são eles quem detém as cartas principais do baralho.
Obviamente que não. É claro que a primeira reacção será sempre negativa. Mas este é um jogo que exige paciência, muita paciência, muito jogo de cintura e muito trabalho de bastidores. Não é nos primeiros 500 metros que se define o resultado de uma maratona. Não se assustem com as palavras de Dijsselbloem e de Rehn, até porque não são eles quem detém as cartas principais do baralho.
sexta-feira, 13 de setembro de 2013
Uma forma atenuada de isolacionismo
Como se sabe, Vasco Pulido Valente é um grande conhecedor da História de Portugal, sobretudo nos séculos XVIII e XIX. De política internacional percebe muito menos, ou muito pouco. Dizer, como diz hoje no Público, que os EUA poderão voltar a "uma forma atenuada de isolacionismo" é um total disparate, mesmo tendo em conta a fórmula vaga que utiliza. Por uma razão muito simples. Esse é um luxo de que Washington não dispõe sob pena de perder a sua posição hegemónica. Nada, aliás, no pós-Guerra Fria e no comportamento dos EUA em particular aponta nesse sentido. Mais. A História não nos revela qualquer exemplo relevante de um Estado dominante que se tenha retraído e abdicado do controlo de que dispunha no sistema internacional.
Sim, claro, os EUA gostariam de manter a sua posição hegemónica sem suportar os custos daí decorrentes. Pois. E eu gostaria de ganhar o Euromilhões.
Sim, claro, os EUA gostariam de manter a sua posição hegemónica sem suportar os custos daí decorrentes. Pois. E eu gostaria de ganhar o Euromilhões.
Consultório sentimental
Você ama ela, cara? E ela gosta de você?
(Ler tendo como pano de fundo uma daquelas canções de Roberto Carlos. Também serve Julio Iglesias.)
Pequenas nuances diplomáticas
Tradicionalmente, quando toma posse um novo governo e/ou um novo ministro dos Negócios Estrangeiros uma das suas primeiras deslocações é a Madrid. Espanha retribui na mesma moeda, i.e. Marrocos e Portugal estão entre os primeiros destinos de visitas bilaterais dos seus novos ministros das Relações Exteriores.
Sem nunca apresentar publicamente uma explicação, Paulo Portas violou essa regra. Ultrapassou, aliás, o limite do razoável. Tendo tomado posse em Junho de 2011, só em Fevereiro de 2013 é que, se a memória não me falha, Portas visitou pela primeira vez a capital espanhola.
Rui Machete volta à linha anterior e uma das suas primeiras deslocações no plano bilateral foi a Madrid. Totalmente de acordo. Segue-se o Magrebe, se faz favor?
Sem nunca apresentar publicamente uma explicação, Paulo Portas violou essa regra. Ultrapassou, aliás, o limite do razoável. Tendo tomado posse em Junho de 2011, só em Fevereiro de 2013 é que, se a memória não me falha, Portas visitou pela primeira vez a capital espanhola.
Rui Machete volta à linha anterior e uma das suas primeiras deslocações no plano bilateral foi a Madrid. Totalmente de acordo. Segue-se o Magrebe, se faz favor?
Em destaque [26]
Um desempenho notável de Cate Blanchett. Não se trata propriamente de um dos melhores trabalhos de realização de Woody Allen, mas em bom rigor também não desilude.
quinta-feira, 12 de setembro de 2013
Small is beautiful
Será cada vez mais um problema. A escala destas grandes empresas torna o risco mil vezes maior. E um dia vamos ter um problema muito grave. É inevitável.
Uma dúvida
O que leva uma editora a publicar um livro que se limita a pouco mais do que coligir um conjunto de textos publicados anteriormente num jornal?
Eu percebo em parte o interesse do autor, mas já tenho muita dificuldade em perceber o que tem a ganhar a editora. As vendas serão seguramente um fiasco e, por conseguinte, a edição dificilmente será rentável. A não ser, claro, que o autor se comprometa a comprar umas centenas de exemplares.
Eu percebo em parte o interesse do autor, mas já tenho muita dificuldade em perceber o que tem a ganhar a editora. As vendas serão seguramente um fiasco e, por conseguinte, a edição dificilmente será rentável. A não ser, claro, que o autor se comprometa a comprar umas centenas de exemplares.
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