terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Guiné-Bissau, uma vez mais [2]

João Pinto Bastos acrescenta mais algumas notas ao tema. Ontem, no meio da conversa, esqueci-me de referir porventura aquele que é o argumento central para justificar a opção por uma estratégia multilateralista. É que a Guiné-Bissau -- um Estado claramente controlado pelo narcotráfico -- representa hoje em dia um problema para a comunidade internacional no seu todo e não apenas para Portugal. Dito de outra maneira, por hipótese, Portugal até poderia ter reconhecido o governo oriundo do golpe de Estado que isso não alterava os dados da equação, i.e. a Guiné-Bissau continuaria a constituir um problema para a comunidade internacional e a exigir uma resposta no plano internacional.

O elogio da autocrítica

Henrique Monteiro recorda um tema em que se enganou. A autocrítica, o exercício de olhar para trás e ver no que é que se errou, é algo muito raro no comentário tanto na comunicação social como nos blogues. No entanto, quem anda à chuva molha-se. Qualquer pessoa que procure antecipar o que pode acontecer mais à frente pode errar. Evidentemente, a alternativa segura consiste em estar calado e nada escrever, ou fazê-lo sempre a olhar para o passado e nunca para o futuro.
Mas regressando à autocrítica, influenciado por Henrique Monteiro, ainda que na diagonal, em breve vou revisitar o que escrevi ao longo de 2013. Haverá seguramente erros de análise, expectativas que não se concretizaram, nuns casos estarei mais sozinho, noutros muito bem acompanhado.
Uma coisa é certa. Acertando e errando, cá estarei uma vez mais em 2014.

BANIF: o atraso

A mesma comunicação social que manifesta uma dureza sem igual em relação às falhas dos governos revela uma estrutural candura na apreciação das notícias oriundas das empresas do PSI-20.
Vejamos. O BANIF não foi capaz de concluir o processo de capitalização dentro dos prazos definidos. Não será propriamente um drama, mas a verdade é que falhou o prazo, o que inevitavelmente revela as dificuldades que está a encontrar para concluir com sucesso o plano previamente definido e acordado. Mas a comunicação social, candidamente, refere apenas um atraso, não propriamente um falhanço, ou dificuldades inesperadas. Nada. Houve apenas um atraso. Tipo, fui ali beber um café e reparei que me tinha esquecido de levar umas moedas para pagar. Uma chatice porque no café ninguém tinha troco de 200 milhões de euros. Por isso tive de voltar a casa e acabei por chegar atrasado ao trabalho.
Moral da história?
Se eu fosse primeiro-ministro tudo faria para colocar o governo no PSI-20.

[Adenda]
Mais. Já reparou que raramente há notícias incómodas para as empresas do PSI-20? Já reparou que nunca há fontes anónimas a zurzir nos CEOs ou nas suas estratégias?
Veja-se o que aconteceu recentemente. O episódio que veio a público sobre a contestação à liderança de Ricardo Salgado é uma raridade. Aparentemente, nas empresas do PSI-20 não há lutas de poder. E repare-se igualmente como o assunto BES desapareceu do radar. Nenhum jornal, nenhum jornalista, teve qualquer interesse em mexer muito no assunto. Tanto jornalista, tanta rádio, televisão e jornal e ninguém conseguiu mais uma única notícia sobre a sucessão de Ricardo Salgado?
É obra...

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Quotidiano


Decisões para 2014 [3]

Ir mais ao cinema. Ouvir mais música. Ler menos livros. Manter o blogue.

Zapping blogosférico

[1] Pedro Picoito e [2] Pedro Magalhães.

Guiné-Bissau, uma vez mais

Queria aqui fazer algumas observações sobre o texto de Francisco Seixas da Costa tendo como pano de fundo a mais recente crise entre Portugal e a Guiné-Bissau. Concordo que a abordagem diplomática portuguesa deve ter como ponto central uma estratégia multilateral. Porventura, fica no ar a percepção de que tal não tem sido o caminho seguido pelo actual Governo. Nada de mais errado. Esta declaração de Catherine Ashton não surge do nada. Portugal tem procurado sempre envolver, tanto quanto possível, a ONU e a UE na sua estratégia de resposta multilateral aos acontecimentos na Guiné-Bissau. Não é, aliás, uma novidade. Tem sido assim com o actual Governo e foi assim com o anterior, para não recuar mais. Nem sempre com o sucesso desejado, naturalmente, mas não tem sido por falta de vontade, ou desatenção da parte portuguesa em relação à componente multilateral. Neste espaço fiz recentemente referência à declaração do presidente do Conselho de Segurança da ONU. Não foi Portugal que redigiu a declaração, mas digamos que também não lhe passou ao lado o draft inicial.
É verdade que no tríptico multilateral, a CPLP é o pé coxo. Mas não é a ausência de um representante diplomático português que explica a inoperância da CPLP no caso da Guiné-Bissau. O problema é o secretário-executivo, Murade Murargy, por regra claramente hostil às posições portuguesas nas mais diversas questões, e por outro a ausência de um consenso mínimo entre os Estados-membros. Portugal poderia ter -- e deve ter -- um representante diplomático na CPLP que, no essencial, nada mudava. Mas, repito, no essencial a estratégia tem sido sempre de aposta numa envolvente diplomática de natureza multilateral. Não me parece, por isso, que exista um risco real de nos enredarmos num processo bilateral que ajude o infractor. É possível, naturalmente, mas parece-me improvável.
Uma última nota sobre a referência oportuna às agências de comunicação. O blitzkrieg mediático de Fernando Vaz teve o seu dedo, como é óbvio. Não foi por acaso que subitamente TSF, SICN e Expresso -- não sei se houve outras entrevistas -- decidiram conceder-lhe, generosamente, tempo de antena. Como sempre, essa é a antecâmara opaca que permanece na escuridão, ainda que nem sempre passe despercebida. Mas essas são as regras do jogo. É a vida.

domingo, 29 de dezembro de 2013

Allez, allez, Sporting allez [18]

Um grande jogo de futebol, muita emoção apesar do empate a zero. Ainda que se aceite o resultado, a verdade é que o mesmo não transmite o que se passou em campo. O Sporting merecia claramente ter ganho este jogo e não o fez apenas porque o guarda-redes do FC Porto fez uma enorme exibição.
Parabéns a todos os jogadores do Sporting pelo excelente jogo. Allez, allez, Sporting allez...!
Foto: Gustavo Bom (Global Imagens via DN).

É como brincar aos pobrezinhos

Lembra-se disto, caro leitor? Na altura esta frase deu que falar e não faltaram manifestações de grande indignação. O tempo, como sempre, encarregou-se de enterrar a polémica na secção do arquivo morto.
Curiosamente, esta prosa de Nicolau Santos -- sempre ele -- tem sido injustamente ignorada. Se o seu apelido fosse Espírito Santo tinha atenção garantida, mas como é o Santos da Impresa pode dizer o que quiser que já ninguém liga. E, no entanto, o conteúdo não anda muito longe da frase (mais directa e expontânea) de Cristina Espírito Santo.
Nicolau foi de férias, pelo que se percebe. Esteve num autêntico paraíso. Não havia stress. Não havia bancos. Não havia luz eléctrica pública. Não havia estradas alcatroadas. Não havia engarrafamentos, uma vez que quase que não havia carros. A malta, em geral, ganhava apenas o salário mínimo -- metade do nosso, vejam lá os mãos largas. Em suma, a rapaziada vivia com pouco e aparentemente sem grandes luxos. Pobrezinhos, no fundo. Um encanto. Ao fim de dez longos dias de brincadeira, uma vida de observação como se percebe, Nicolau conclui que "não [lh]e pareceu que os habitantes do local fossem mais infelizes do que nós". O leitor repare bem: o mesmo Nicolau que se farta de zurzir o Governo por nos estar a tornar todos mais pobres faz neste artigo a apologia de "outras maneiras de viver", no fundo com cheta e meia. Infelizmente, os dez dias não deram para brincar em todos os escorregas do paraíso e ficou por dizer uma palavra sobre o sistema de saúde, o ensino, ou a segurança social, mas estou certo que serão também um espectáculo. Como se sabe, os pobres fazem milagres com o salário mínimo.

Algumas considerações filosóficas sobre enchidos

Todos gostamos de comer enchidos, mas ninguém está muito interessado em saber como são feitos. Esta observação profunda, digna de Kant ou Platão, vem a propósito das previsões da Economist Intelligence Unit (EIU). A marca Economist dá -- dá mesmo? -- alguma credibilidade às previsões, pelo que poucos querem saber como se chegou a tais resultados. Quem é que fez parte da equipa que chegou a estas previsões. Que variáveis foram tidas em conta para se chegar a estes resultados. Ninguém está muito interessado em saber como são feitos os enchidos, na verdade. Tudo isto, no fundo, não passa de infotainment. Alguém se lembra quais eram as previsões da EIU para Portugal em 2013?
Pois...

Zapping blogosférico

[1] Francisco Seixas da Costa.

Guiné-Bissau: Fernando Vaz [3]

Cada tiro, cada melro. "Estamos a combater o narcotráfico de forma eficaz", diz o artista Fernando Vaz na entrevista referida. O jornalista Hugo Franco esquece-se de lhe perguntar pelos resultados desse combate. Quem foi preso, que cargas foram apreendidas, enfim, detalhes desse combate eficaz.
Esquece-se igualmente de lhe perguntar se nesse combate eficaz se inclui a manutenção de um CEMGFA, António Indjai, acusado por um procurador dos EUA de tráfico de drogas e armas. Ou se se referia à detenção pelos EUA de Bubo Na Tchuto.
Um artista este Fernando Vaz...

Guiné-Bissau: Fernando Vaz [2]

Como já escrevi anteriormente, Fernando Vaz é um artista. Um artista que brinca com os jornalistas portugueses. Utiliza-os e ainda se fica a rir da sua ignorância. Alguns exemplos?
Na sua entrevista publicada na edição do Expresso desta semana, Fernando Vaz destaca as supostas dívidas da TAP, uma vez que a companhia aérea portuguesa não paga os impostos devidos à Guiné-Bissau, mas sobre as dívidas da Guiné-Bissau à TAP nem uma palavra. Uma omissão conveniente que o jornalista deixou passar.
De seguida refere que não há um acordo para evitar a dupla tributação entre a Guiné-Bissau e Portugal. Mais uma, digamos, sejamos simpáticos, imprecisão involuntária. Não só o acordo foi assinado em 2008, como já está em vigor desde 2012. O jornalista, uma vez mais, ficou a apanhar bonés.
Quanto às supostas fragilidades do check in online dispenso-me de fazer comentários. É tão ridículo que nem vale a pena perder tempo com isso.
Repito: Fernando Vaz é um artista. Como os jornalistas portugueses não conhecem os assuntos, ele faz afirmações que não correspondem à verdade sem qualquer tipo de contraditório. No fundo, o jornalista Hugo Franco serviu apenas para segurar o gravador enquanto Fernando Vaz disse o que quis, como quis e quando quis, sem grandes preocupações de, digamos, rigor. Foi ele quem fez a entrevista a Fernando Vaz como poderia ter sido o Rato Mickey. Hugo Franco entrevistou Fernando Vaz como poderia ter entrevistado Tony Carreira. Mas isso, na verdade, pouco lhe interessa.

sábado, 28 de dezembro de 2013

Quotidiano


Pão e circo

Era interessante fazer o mesmo exercício com as direcções das televisões, rádios e jornais. Qual seria a nota, por exemplo, de Nicolau Santos, João Marcelino, Bárbara Reis, ou de Paulo Baldaia?
Os políticos, pelo menos, prestam contas através de eleições regulares, livres e justas. É, em última instância, quem vota que decide a continuidade deste ou de outro governo. No caso da comunicação social, apesar da sua enorme relevância na nossa vida colectiva, os mecanismos de accountability são totalmente opacos. Há direcções de televisões, rádios e jornais que, independentemente dos resultados (audiências, vendas, credibilidade/influência, etc.), se mantêm sem que se perceba o motivo de tanta fidelidade da parte dos accionistas.
Naturalmente, há casos de excelentes profissionais e com resultados para apresentar. Pedro Santos Guerreiro, por exemplo. Há outros, claro, mas o panorama está longe de ser animador.
No entanto, esta tropa todos os dias larga postas de pescada como se fossem uma espécie de deuses, sempre a olhar de cima para baixo, como se fossem moral e intelectualmente superiores aos restantes membros da sua comunidade e em particular em relação aos políticos. Haja pachorra.
P.S. -- Há casos que nem sei se ria, se chore...

Decisões para 2014 [2]

Manter o espírito crítico -- e aqui posso seguramente ser muito mais crítico do que tenho sido até agora -- em relação ao Governo. Será, de qualquer modo, o 'meu' Governo até ao último dia.

Zapping blogosférico

[1] Luís Naves e [2] Tavares Moreira.

Decisões para 2014 [1]

Manter o espírito crítico -- mais crítico ainda, se possível -- relativamente à comunicação social portuguesa. Não esquecer, em circunstância alguma, a falta de credibilidade de muitos destes personagens.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Guiné-Bissau: a espinha atravessada na garganta

O governo de facto oriundo do golpe de Estado de 2012 nunca escondeu a enorme irritação que lhe causou o facto de Portugal não lhe ter reconhecido legitimidade política. O trauliteiro Fernando Vaz é o ponta de lança que dá corpo a essa enorme irritação. O governo oriundo do golpe militar sabe bem o quão importante é o papel de Portugal. Por isso a posição do Governo português tem sido uma espécie de espinha atravessada na garganta.
Neste jogo, em que a paciência conta muito, o desgaste não é homogéneo e equitativamente distribuído. Portugal pode conviver tranquilamente com o arrastar da situação, o que não é o caso do governo de facto de Bissau. À medida que se vai esgotando a paciência da CEDEAO -- o último presidential statement do presidente do Conselho de Segurança da ONU dá algumas pistas nesse sentido -- o governo oriundo do golpe vai perdendo espaço de manobra, ficando cada vez mais isolado e dependente dos poucos apoios que lhe restam.
As eleições, entretanto, poderão voltar a deslizar no calendário. A confirmar-se, a reacção da comunidade internacional será inevitável. Este governo de facto está num beco com uma saída muito estreita. O primeiro-ministro de Bissau sabe isso, Fernando Vaz também, só alguns idiotas úteis portugueses é que parecem não ter ainda percebido o que para os golpistas foi claro desde a primeira hora.

Zapping blogosférico

[1] Jorge Heitor e [2] Pedro Cruz.