quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Fosun: mais um passo na nova geografia estratégica?

O Governo decidiu vender a Caixa Seguros à Fosun. Na conferência de imprensa após o Conselho de Ministros, o secretário de Estado das Finanças, Manuel Rodrigues, afirmou que os chineses apresentaram a "proposta de maior mérito" do ponto de vista financeiro, estratégico e jurídico.
Depois da EDP e da REN, estamos perante mais uma privatização que consolida a entrada de capitais chineses em Portugal, facto que considero muito positivo e que, como já referi em 2012, está a abrir as portas a uma recomposição potencial, ainda que parcelar, da própria política externa portuguesa.

Euro: crise superada? [2]

Tal com eu, mas seguramente com muito mais conhecimento do que está a falar, Mario Draghi também lhe parece prematuro estar a decretar o fim da crise. Naturalmente, a "confiança regressou", frisou o presidente do BCE, e isso é um facto crucial. Portugal, aliás, tem beneficiado muito deste clima de confiança interno e externo. Hoje, por exemplo, houve uma mão cheia de boas notícias: o regresso aos mercados foi um sucesso, ainda que em ambiente controlado, por assim dizer; as yields continuam a descer; as exportações continuam a crescer; e, last but not the least, mais uma etapa no processo de privatizações que se encerrou com êxito.
Nada disto, todavia, quer dizer que este ano não seja ainda muito difícil. Hoje, por exemplo, na sequência do chumbo do Tribunal Constitucional, o Governo anunciou os novos cortes nas pensões e o novo agravamento das contribuições para a ADSE. Mas, repito, como disse Draghi, a verdade é que apesar das condições difíceis a confiança regressou. Sem ela não há novos investimentos e consequentemente novos empregos. E isso é fundamental para sairmos do buraco em que nos encontramos. Em suma, começa a ver-se uma pequena luz ao fim do túnel. Finalmente.

Zapping blogosférico

[1] Helena Sacadura Cabral, e [2] Francisco Seixas da Costa.

Euro: crise superada?

Ao contrário de Durão Barroso, não sei se a crise do euro está ultrapassada. Talvez. Espero que sim, mas não me parece ainda absolutamente seguro. Adiante. É curioso observar como o debate e a discussão pública em Portugal tem uma faceta aleatória, por vezes difícil de perceber. Um exemplo: Portugal deixou de estar interessado nas famosas OMT de Mario Draghi?
Há alguns meses atrás não se falava de outra coisa. Porém, a crise política originada pela demissão irrevogável de Paulo Portas foi um duro golpe na estratégia do Governo -- em particular das Finanças -- para que Portugal cumprisse os requisitos, pouco claros, que lhe permitiriam beneficiar dessa ajuda do BCE. O assunto, entretanto, quase que desapareceu do radar mediático.
Entretanto, Portugal volta hoje aos mercados. No meio do ruído sobre saídas limpas e programas cautelares, e independentemente da descida das yields, o que aconteceu ao nosso interesse nas OMT? Esfumou-se?

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

PS: qual a alternativa?

Teixeira dos Santos teria preferido aumentar o IVA. Concorde-se ou não com esta opção, ela é seguramente melhor do que defender um aumento do défice, como fez António José Seguro. O líder do PS, como sempre acontece, nunca dá más notícias e, por regra, o pouco que propõe consiste sempre em manter ou aumentar a despesa pública. António José Seguro encaixa na perfeição no diagnóstico geral feito pelo insuspeito Luís Amado, na Visão, de uma Esquerda que não consegue apresentar propostas credíveis para a redefinição do papel do Estado e que demora em perceber o efeito nefasto do endividamento excessivo.
Com a excepção do acordo com o Governo sobre a reforma do IRC, julgo não ser má vontade da minha parte se disser que o consulado de Seguro na liderança do PS se resume a uma mão cheia de nada. Mesmo sabendo que a vida de um líder do PS, ou do PSD, na oposição não é nada fácil, aquilo que Seguro tem para apresentar é manifestamente pouco para ter credibilidade enquanto alternativa.

Quotidiano


Desemprego: o pior já passou?

Nove meses consecutivos a descer a taxa de desemprego tem seguramente alguma leitura. Não vejo outra explicação que não seja que a economia portuguesa já deu mesmo a volta. Vivemos ainda dias de enorme fragilidade política, económica e social, mas o pior já passou. Consequentemente, apesar da enorme carga fiscal, directa e indirecta, as pessoas começam a sentir -- e os factos parecem confirmá-lo -- que a nossa situação está a melhorar. Não é muito ainda, naturalmente, mas o suficiente para incutir alguma esperança.
É por essa e por outras razões -- as sondagens, a potencial reacção negativa dos mercados, a discussão e aprovação de um novo Orçamento do Estado, a interpretação Cavaco Silva dos poderes presidenciais, entre outras -- que a leitura política de Nuno Morais Sarmento me parece não ter muito sentido. Mais. Como ainda ontem se verificou, o Presidente encara com muita preocupação o pós-troika. Nessa medida, a última coisa que Cavaco Silva quereria ser era um factor de instabilidade política.
Acresce que o Presidente da República não precisa de se precipitar provocando crises políticas absurdas. O acordo entre PS, PSD e CDS, que Cavaco Silva foi incapaz de mediar em 2013, estará ao seu alcance depois das eleições legislativas de 2015. De forma muito simples, aliás: o Presidente necessita apenas de exigir ao partido mais votado (eventualmente à coligação), seja ele PS ou PSD (ou PSD-CDS), uma solução governativa que inclua os dois maiores partidos e garanta uma maioria absoluta, caso contrário não dará posse a um novo governo. Na ausência de um entendimento, Cavaco Silva apenas tem de ameaçar que convocará novas eleições se necessário. Aposto que ninguém estaria muito interessado nisso.
Regresso ao desemprego. Não sei se os novos empregos que estão a ser gerados são 'piores' -- i.e. mais trabalho precário, com remunerações inferiores, etc. -- do que aqueles que se perderam. Admito que possa ser. Mas há um ano nem isso a nossa economia era capaz de gerar em número suficiente para fazer descer a taxa de desemprego. A notícia, por isso, não pode deixar de ser encarada com satisfação.

Zapping blogosferico

[1] Luís Naves, [2] Pedro Magalhães, e [3] Luís Moreira.

Cavaco Silva: o regresso limpinho

Ao contrário do PS, o Presidente da República não quer um regresso aos mercados de forma limpa.
O PS quer porque não acredita que seja possível. O Presidente não quer porque receia que seja possível?

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Vermes: Ele Está de Volta

E se Hitler não tivesse morrido? E se regressasse à política alemã? Adolf Hitler acorda em Berlim em 2011. Este é o ponto de partida de Timur Vermes que ao longo de 300 páginas vai descrever as peripécias à volta da tentativa de re-ascensão política de Hitler.
Recorrendo ao humor, este livro faz uma crítica ao peso da comunicação social nas sociedades democráticas. Não se trata propriamente de uma originalidade. Karl Popper publicou um pequeno livro sobre o tema na primeira metade da década de 1990. Mas Timur Vermes não tem, todavia, pretensões filosóficas ou académicas, e limita-se a proporcionar algumas horas de entretenimento. De facto, o autor consegue criar situações de humor tendo por base o facto de Hitler acordar 66 anos depois da II Guerra Mundial, sem qualquer conhecimento do que se passou durante este período. O mesmo se passa com as novas tecnologias, uma absoluta novidade para Hitler.
Timur Vermes não simpatiza seguramente com Angela Merkel, não desperdiçando por isso a oportunidade para, recorrendo a Hitler, deixar aqui e ali alguns comentários muito pouco simpáticos em relação à chanceler e a alguns membros do seu Governo.
Isto dito, à medida que a acção se desenrola, o livro vai perdendo parte da sua força. Inicialmente parecia prometer mais, mas a determinada altura cai num registo puramente descritivo, em detrimento de um argumento mais elaborado.
Vale a pena ler, de qualquer forma?
Diria que sim, ainda que não fosse a minha primeira recomendação.

Quotidiano

Hoje esteve um excelente dia de praia no final da tarde. Apenas dois ou três carros no parque de estacionamento. Uma única pessoa -- moi -- a passear no areal, tendo como pano de fundo o som das ondas e uma ligeira brisa. Tudo com os cumprimentos do tempo de chuva, que fez uma pausa respeitosa perante a minha presença. Não se pode pedir mais, pois não? Carpe diem.

Diplomacia económica...

...sem estardalhaço e aparentemente com resultados para mostrar.

Zapping blogosférico

[1] Pedro Correia, [2] João Miranda, e [3] João Pinto Bastos.

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Machete: em alta

Rui Machete conseguiu ter uma intervenção cujo conteúdo não se tornou um problema. Por Toutátis, um progresso assinalável a começar o ano!

Sobre a racionalidade

Eis a prova, provada, over and over again, que um bom gestor não é necessariamente um bom político. Seguir a Irlanda não é totalmente racional, afirma António Simões. Talvez. Mas do ponto de vista político não é a mesma coisa. A política não se resume a um exercício técnico, ou 'meros' cálculos de racionalidade. Governar um país não é a mesma coisa que governar uma empresa, pormenor que muitos gestores parecem frequentemente esquecer.

PS: o regresso limpinho [2]

O título poderia ser, aliás, a metamorfose. Longe vão os tempos -- na verdade nem vão assim tão longe... -- em que António José Seguro defendia mais tempo e menos juros. A "forma suja", digamos assim. Agora, o PS já não quer mais tempo, nem mais dinheiro, antes exigindo um regresso aos mercados de forma limpa.
Perante um sucesso do Governo que se começa a adivinhar, tal como um náufrago, o PS agarra-se ao que pode para tentar sobreviver. O PSD e o CDS se estivessem na oposição muito provavelmente fariam o mesmo, que isso fique bem claro.
António José Seguro sabe que o vento não sopra a seu favor, independentemente do que digam, por agora, as sondagens. O líder do PS sabe que o tempo político entrou em contagem decrescente. Porém, tal como a vitória nas autárquicas, um êxito eleitoral nas próximas eleições europeias não resolve o seu problema central, i.e. não acelera o calendário político. Ora, sem eleições legislativas antecipadas, a vitória do PS não é garantida. Já aqui escrevi em inúmeras ocasiões que não excluo a possibilidade de Pedro Passos Coelho ganhar as eleições legislativas em 2015. Não é um resultado garantido, evidentemente, mas também não é impossível, ao contrário do que pensam, por agora, muitos observadores.
Voltamos sempre ao momento em que, perante circunstâncias muito complicadas, Seguro possivelmente cometeu o erro estratégico que definiu o seu futuro político. A cada dia que passa, o líder do PS sente que o chão lhe está a fugir. Seguro está completamente perdido e sem estratégia. A exigência legítima, mas politicamente inconsequente, de um regresso aos mercados de forma limpa é apenas um primeiro sintoma visível desse desnorte.

domingo, 5 de janeiro de 2014

Eusébio

Faço minhas estas palavras. Nada mais a acrescentar.

Carpe diem

A melhor notícia da semana?

É esta. Sem uma descida significativa dos juros não há regresso limpo aos mercados, nem qualquer hipótese de, em teoria pelo menos, prescindir de um programa cautelar.
P.S. -- Há gafes muito informativas, como certamente todos nos recordamos.

PS: o regresso limpinho

O PS quer que Portugal regresse aos mercados "de forma limpa". Curiosamente, o mesmo PS está contra toda e qualquer medida que permita esse regresso 'limpo'. Isto dito, o PS terá de nos explicar como é que o resvalar do défice para 4.2% contribui para esse objectivo.