quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Pires 'Shakespeare' de Lima

To be or not to be...

Zapping blogosférico

[1] Joana Lopes, e [2] Luciano Amaral.

Frederico Pedreira: Doze Passos Atrás [2]

ESTÁTUAS
Desde criança que cumprimento o meu pai
 e todos os meus tios com um beijo na cara.
Desde criança que me recordo do odor acre
das suas bocas, vindo do peru do Natal,
dos lagos de vinho tinto, do excesso de beijos.
É isto que sobretudo recordo: o excesso de beijos.

Não me parece agora justo pedir-lhes que
voltem alegremente ao que eram, ao teatro onde
faziam tilintar os talheres, as facas de trinchar,
aos seus modos de afagarem as barrigas,
à sua insistência em conversarem.

Por vezes, temo-os: são gestos apontando o vazio,
indefinidos no ar raro em que os deixei, debaixo
de uma chuva de gravilha. Mostram um sorriso
largo no rosto sem ter onde desembocar e aquele
doce modo de desacelerar a vida, permitindo-a
morrer devagarinho, como deve ser, em paz.

Frederico Pedreira, Doze Passos Atrás (Artefacto, 2013), p 53.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Black Wednesday

É mais ou menos isto: . . . - - - . . .

Frederico Pedreira: Doze Passos Atrás

A ESPERA
Éramos ainda tão novos quando aprendemos
a fingir os movimentos do volante e das mudanças,
a disfarçar a ansiedade da espera
nos cliques da regulação dos faróis.
O som oco dos pedais pressionados
pelos nossos pés minúsculos,
tudo a mover-se a uma velocidade inabitável.
Eu e o meu irmão, de madrugada,
imitando o ruído do motor com os lábios,
apontados para a fachada daquela cervejaria
que nos retinha sem razão, conduzindo
numa quilometragem de medos,
dali para fora.

Frederico Pedreira, Doze Passos Atrás (Artefacto, 2013), p 38.

Zapping blogosférico

4700 condutores...

...a uma infracção de ficarem sem carta. Esta é a notícia central hoje na capa do Diário de Notícias. O número é impressionante. Ainda sem ler a notícia, quase que apostaria que a esmagadora maioria são contra-ordenações por excesso de velocidade. A maioria das operações de controlo de velocidade, como o leitor sabe, são pura caça à multa, sem qualquer outro critério que não seja facturar. Quem conduza 30 a 40 mil quilómetros por ano dificilmente escapa sem ter tido uma, ou várias, contra-ordenações graves e muito graves.
Juntou-se a fome à vontade de comer, i.e. um legislador com mão pesada e agentes da lei com uma enorme vontade de mostrar serviço. O resultado está à vista.
Altura, talvez, para decretar uma amnistia geral?

Trichet: será Portugal a decidir sobre cautelar

Como não poderia deixar de ser. Apesar das evidentes condicionantes existentes à nossa autonomia de decisão, em todo o caso ainda somos um Estado soberano. Nesta matéria Pedro Passos Coelho parece-me ter uma posição inatacável. Como o caso irlandês demonstra, não temos de tomar nenhuma decisão até ao final da semana. Ainda há muito tempo à nossa frente até ao final do programa da troika.

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Rehn: "reacção nacional tardia"

Há quem insista desesperadamente em re-escrever a História. José Sócrates, por exemplo, fá-lo todas as semanas no canal público de televisão, ainda que poucos se disponham a ouvir historietas de adormecer. A verdade, porém, por mais que se procure confundir, insiste em vir ao de cima.

Mais uma barreira...

...psicológica que foi ultrapassada. Bem sei, vale o que vale, mas não deixa de ser mais um passo na direcção que nos interessa.

Teixeira da Silva: O Lugar que Muda o Lugar

O LUGAR QUE MUDA O LUGAR
Dias e dias em que olhamos as margens
a simbólica, real escorrência
e trazes no sopro do ar, neste exacto ar
os versos que vêm e vão de oriente a oriente

Assim batam nos olhos as coisas literais
o lugar em que o lugar muda o lugar
e explica o mar maresias de si para si
o peso do sol e o peso da lua

A água na distinta água arrasta
os conhecidos seixinhos, róseos detritos
carcaças de aves e petróleo que cheira
como cheiram alegorias do mal

Dias para alcançar o fim da terra
ver aparecer, ver desaparecer
essa impecável figura peregrina
e os nomes próximos de areias e rochedos
cabedelo, pedra davra, samagaio
perdida evidência entre marés

José Manuel Teixeira da Silva, O Lugar que Muda o Lugar (Língua Morta, 2013), p. 13.

Zapping blogosférico

Portugal e a República Centro-Africana [2]

Um mês depois ainda andamos nisto...

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Cali: King of the Dancefloor

Tenho uma enorme admiração por todas as pessoas que se dedicam às diferentes formas de criação artística. Mais ainda no caso de Cali por se tratar de um ex-aluno meu. Não posso, por isso, deixar de fazer referência ao seu CD a solo, King of the Dancefloor, onde ele mistura sonoridades que vão do Hip Hop, House, Kuduro ao R&B.
O resultado final?
Cinco estrelas. 

Quem será o candidato presidencial do PSD? [2]

Pedro Passos Coelho afirmou estar surpreendido com a reacção de Marcelo Rebelo de Sousa. Não sei se é o caso, mas a dissimulação faz parte das regras do jogo político. Como era óbvio, o primeiro-ministro dificilmente iria assumir, ou personalizar, o perfil traçado na moção de estratégia. Mas, evidentemente, também não negou que o ex-líder do PSD possa estar no lote dos excluídos.
Adiante. Esta polémica tem muito pouco sentido a esta distância das eleições presidenciais. Como é óbvio, ainda vai correr muita água por debaixo das pontes até 2015.

The Wolf of Wall Street

Estrelas: 4/5

Quem será o candidato presidencial do PSD?

Eis como uma moção de candidatura, em poucas linhas, pode condicionar a agenda política e mediática. Segundo a interpretação geral, Passos Coelho recusa apoiar Marcelo Rebelo de Sousa. No perfil que se desenha, o que se critica, no fundo, é a sua suposta falta de credibilidade, mas a discussão posterior tem vindo a abordar também a interpretação dos poderes presidenciais pelo candidato.
Passos Coelho teve muito provavelmente duas, ou mais, intenções. Mostrar, em primeiro lugar, que uma vitória nas legislativas está ao seu alcance, daí a discussão das presidenciais. Em segundo, definir um perfil pessoal de candidato, sobretudo pela negativa, i.e. excluindo, porventura, Marcelo Rebelo de Sousa, entre outros.
Duvido que, ao contrário do que está a ser dito e escrito, Passos Coelho queira condicionar a escolha do futuro Presidente em função da sua interpretação dos poderes presidenciais. Por uma razão muito simples. Naturalmente, qualquer primeiro-ministro quer um Presidente o menos interventivo possível, mas Passos Coelho sabe também que no dia da eleição o Presidente 'autonomiza-se', por assim dizer, do partido que o apoiou.
Sim, Passos Coelho quererá que o PSD apoie um candidato credível e não apenas com popularidade, mas não creio que o veto a Marcelo Rebelo de Sousa tenha alguma coisa que ver com a sua interpretação dos poderes presidenciais.

Nunes da Rocha: Óculos Sujos, Fígado Gordo

A vida não é mesa posta
Ou lâmpada fundida.
Pode também ser um medo
De vidro, quando
A garrafa retorna sem notícia
E as mãos regressam aos bolsos --
Constelação maior
De uma biografia distraída.

Deixa-me neste cais de nuvens
(Óculos sujos,
Fígado gordo);
Varrendo os barcos de papel,
Cotão dos dias,
No tapete da entrada.

Nunes da Rocha, Óculos Sujos, Fígado Gordo (&etc), p. 37.

Zapping blogosférico

[1] Luís Moreira, e [2] Ana Cristina Leonardo.

domingo, 19 de janeiro de 2014

António José Seguro: perdido e desnorteado

A melhor defesa é o ataque, diz a sabedoria popular. Perdido e sem estratégia, algo absolutamente evidente, o líder do PS inverte a situação e acusa o primeiro-ministro de estar "perdido e desnorteado". Quase que parece um número de stand-up comedy...